Blog que queria ser outra coisa, mas que se contenta em deixar trans-pirar a sua dona... Moda, literatura, cinema e efêmeras frivolidades em geral.

17
Fev 09

Há tempos eu conhecia o livro de Mercé Rodoreda.

Há tempos também eu sabia o que disse García Márquez - morador ilustre de uma Barcelona franquista, ver Seis Contos Peregrinos -  sobre Mercé Rodoreda e a respeito desse livro filho do exílio, publicado em 1962.

E quando vemos a fotinho na orelha do livro, de uma Mercé velhinha, com um sorriso que extravasa a folha jamais poderíamos imaginar a força narrativa de que ela foi capaz de criar e tirar de dentro de si.

Ainda mais ela, que poderia ter sido Colometa, a Natália de Gràcia, que conhece Quimet na Plaça del Diamant, abandona Pere para casar-se com ele, tem seus filhinhos e os pombos que lhe devoram a vida ao mesmo tempo que a Guerra sangra uma Espanha dividida desde sempre.

Pra quem já estudou a Guerra Civil fica fácil contextualizar, pra quem nunca ouviu falar, vale a pena ir mais a fundo. Meu mestre Enrique Serra Padrós, filho de catalão republicano emigrado ao Uruguai, iniciou-me nesse mundo nefasto e apaixonante chamado Guerra Civil Espanhola, ou o Grande Ensaio Geral, se preferirem, para a II Guerra.

Dessa guerra sangrenta e terrível, descrita por Andre Malraux em A Esperança - para alguma coisa as desditas servem nesta vida -  talvez nos reste a melhor imagem que ela produziu: Guernica, o quadro gigante e gigantesco de Picasso - lembro da gravura em metal que havia na casa de meus pais, em dimensões menores mas igualmente marcante.

Picasso, que na exposição universal de 1938, em Paris, onde já vivia há quase trinta anos, responde ao mandatário alemão se era o autor da obra:

- Não fui eu que fiz. Foram vocês.

Pausa para refletir.

Quem lê A Praça do Diamante se assombra com a poética e com o fluxo de idéias, de consciências de Colometa, tida por ingênua, mas na verdade uma moça pega de surpresa, em meio ao turbilhão insano e desesperador da guerra.

Apesar de tudo, a vida continua sempre e Colometa segue na sua busca intermitente por uma vida melhor para si e seus filhos e é no momento de maior desespero - a cena da garrafa deixada no balcão após a catarse é um soco no estômago, uma facada no fígado - que a esperança ressurge.

Colometa volta a ser Natália e Gràcia volta a ter graça.

Não há mal que sempre dure.

Valeu a pena virar a noite em busca de uma estória que é, também, história.

 

publicado por joanabosak às 14:27
sinto-me: viva
música: Cucuru Paloma
tags:

Nem deu pra acabar bem o post Coraline e já fui assistir ao filme de novo.

Mas esse post já passou e fiquei devendo Tango, outro do mestre Saura, que ele esteja no meio de muita dança, onde estiver.

Começa detonando: uma panorâmica da Capital Federal: esse pedaço de Europa latino-americana que é Buenos Aires. Cidade que eu amo e quero voltar sempre que puder.

O filme - menos documentário e mais filme que Ibéria, assunto anterior deste blog - mescla tango, claro, à reflexão sobre a política e a história recente argentinas.

Os bailes são lindos, alguma música ao vivo e bailarinos incríveis. Até un tío que é possível assistir na Esquina Carlos Gardel, Julio Bocca.

No meio disso tudo, como não poderia deixar de ser, um - ou até mais - triângulo(s) amoroso(s).

Na contracorrente, Mario - Miguel Angel Sola, de Sur - é o artista-diretor do espetáculo, recém acidentado, manco, rejeitado pela mulher, que se divide entre a direção do espetáculo e seus delírios de amor e dor de cotovelo. Para varrer Laura da memória, Mario descobre Elena, amante de um dos capos da cidade e patrocinador do show.

Contra todas as possibilidades de sucesso, Mario monta um espetáculo pouco palatável para muitos e vive o amor com una chica de 23.

Tango é puro amor em vermelho. Disputa, sensualidade, com direito às adagas das brigas de pulperias tão platinas. É o Mar Dulce menos dulce e mais traiçoeiro. É o recomeço de todos os dias, com as fraturas internas e externas de cada um.

Em tempos de reinvenção do tango vale a pena rever Saura.

publicado por joanabosak às 01:04
sinto-me: cansada
música: tv ligada

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