Blog que queria ser outra coisa, mas que se contenta em deixar trans-pirar a sua dona... Moda, literatura, cinema e efêmeras frivolidades em geral.

02
Mar 09

"Canta, ó musa...". Assim começam a Ilíada e a Odisséia, os clássicos da tradição oral grega fixados por Homero, citado por Machado de Assis em Esaú e Jacó - exatamente nesta passagem - e também ad infinitum nas mais diversas traduções artísticas, fiéis ou infiéis. A exortação à Musa pode ser vistá lá, n'O Leitor, de Stephen Daldry, esse já uma releitura - mas isso é para um outro post.

A Musa como inspiração a uma ação épica faz parte de um imaginário ocidental antigo que se perpetuou até bem próximo de nós.

Que é Helô Pinheiro, nos bons tempos? A musa inspiradora de Tom e Vinicius para outro clássico - esse, da música popular brasileira.

Mas indo além, a dona da voz de parte das mulheres que não tiveram voz, Michelle Perrot, a grande historiadora francesa, de História das Mulheres e Mulheres públicas - este que eu leio e me lastima não ter lido antes, porque eu já tinha, de alguma forma, o livro há bem uns douze anos... - fala de um ideal ocidental masculino que é o da musa-madona.

E o que vem a ser isso?

A forma acabada de uma fêmea, que só não é angelical porque tem sexo, mas não por isso menos divina.

Que é a musa?

É a que inspira, a que exorta, do alto do Olimpo: ela assume, na Odisséia, um nome, o nome da deusa da guerra e da sabedoria: Atena, embora as musas, na verdade, fossem nove, uma pra cada arte.

E o que é a madona - com minúsculas, por favor, e um N só! -?

É a figura virginal da uma mãe renascentista que encarna a mãe do Deus cristão.

Ambas intocáveis. Ambas perfeitas, limpas, caridosas, estáticas e extáticas.

Nada de mulher real, à beira de um ataque de nervos cotidiano, às voltas com dietas e cremes e roupas e sapatos e chiliques mis!

A musa-madona ainda é a mulher ideal. Amélia que me perdoe, mas esse nome não me remete a nada do Belo intangível que as musas-madonas devem ser.

Mas Perrot quer mesmo é falar daquelas mulheres que ousaram ousar em séculos anteriores e que tornaram possível ser mulher hoje.

Mulheres íntimas que se tornaram públicas: resolveram escrever, trabalhar, sair da sombra de seus homens.

E aí temos uma Isabelle Eberhardt, francesa aventureira, disfarçada de Tuareg, no norte da África - essa eu já conhecia, graças às Histórias de Mulheres da ótima Rosa Montero.

Temos uma George Sand, escritora francesa, ativista pollítica quando das revoluções liberais, que se vestia como homem, embora, obviamente, isso não apenas não fosse tolerado, mas PROIBIDO.

Temos uma Mary Wollstonecraft, nascida em 1759, filha de um fabricante de lenços, que com 19 aninhos sai de casa numa Inglaterra ainda não vitoriana e que lança mais tarde, A Reivindicação dos Direitos da Mulher, um documento fundamental para a nossa existência. Mary escreveu muitas outras coisas, inclusive uma defesa dos direitos do homem, onde detona a indústria escravocrata que enriquecia seu país natal e foi lida por vários dos iluministas. Além disso, ela viveu e teve duas filhas com homens diferentes - que escândalo - defendendo que o casamento é uma espécie de prostituição legal, o que causou celeuma na época.

Ou seja, no século XVIII, enquanto se fazia, na França, uma revolução masculina e burguesa, Mary vivia a vida de uma mulher que existia como cidadã. Além disso, nos deixou outro grande legado: sua filha, Mary Wollenstocraft Shelley, a autora do Prometeu moderno, Frankenstein. O que Perrot não sabe é que Mary foi traduzida no Brasil por Nisia Floresta, ainda no século XIX!

Michelle Perrot enumera muitas mais. Entre elas, Sevèrine, a primeira jornalista francesa, que abriu espaço pra toda uma imprensa feminina com profissionais mulheres.

E esse é um espaço fundamental de existência delas: a imprensa, principal e inicialmente de moda.

É na imprensa de moda justamente que encontraremos algumas das primeiras profissões femininas além da ocupação doméstica e de algumas pioneiras operárias.

Mas é importante que se diga que a imprensa era o lugar da opinião e esse era um lugar eminentemente masculino.

Pensa bem: na França a mulher só teve o direito ao voto depois do Brasil, após o fim da II Guerra. Então, imaginemos não ter direito civil até lá?

Opinião, então, nem pensar. Nem calças compridas se podia usar em "passeios públicos".

Dessa forma, as roupas e todo o seu conteúdo - já que Virginia já dizia que são elas que nos usam e não nós que as usamos - passando pelo costume de uma época, comportamentos, códigos de conduta, maneiras de ser e estar no mundo; estão, uma vez mais na origem da mulher - e por decorrência, do homem - moderna, já que existir na era pós Musa-madona dependeu em grande parte da existência das roupas e de toda a sua indústria.

Cabe decidir, hoje, qual é o lugar que queremos: ser estátua ou escultura ou ser a transcendência dessa cultura. Matemos o nosso anjo do lar, como querem Virginia e Maria Aurèlia.

Eu ainda acredito poder ser musa-madona-muderna com idéias.

Por enquanto, me contento em ser apenas uma pequena musa paradisiaca.

 

 

publicado por joanabosak às 18:33

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