Blog que queria ser outra coisa, mas que se contenta em deixar trans-pirar a sua dona... Moda, literatura, cinema e efêmeras frivolidades em geral.

28
Dez 08

E juntos somos A Festa.

 

A todos os meus amantes, amados, amores; de sempre, de hoje, de amanhã.

Quero todas as festas ecoando diariamente nos próximos decênios e beber e brindar com vocês comigo todos juntos brilhando, lendo, esperanzando viver sempre melhor mais feliz mais rindo.

Aliás, as risadas são a melhor parte. Muitas risadas, poucas verdades, algumas mentirinhas pra acabar com a monotonia e com os monotemas nossos de cada dia.

E por estar um pouco monotemática é que não tenho escrito o que gostaria e o que deveria por dever a mim mesma.

Mas hoje, depois de algum espumante a algum vinhoto me permito sonhar, beber, viver e... sim, crer.

E crendo estou em tudo o que me rodeia, me cerca e não me cerceia, o que me faz eu, mais feliz, mais amada e mais Jô.

Muitos beijos abraços carinhos brindes taças risadas massagens e algos mais...

 

"Cada homem é uma exceção à regra que não existe."

Fernando Pessoa

publicado por joanabosak às 16:24
sinto-me: quase lá
música: Ventilaor R-80
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23
Dez 08

Uma das melhores do ano, citada no Açorianos, vinda de Ariano:

 

"Quem jura dizer somente a verdade vai perder o melhor da festa."

 

Juro que quero estar na festa sempre. Espero que isso seja uma verdade.

publicado por joanabosak às 01:32
sinto-me: vinda do quintal do vô
música: Credence
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20
Dez 08

Na falta de ter o que dizer realmente, me contento bem com o homem-espetáculo, que não pude ver, mas ao qual fui reportada em novembro de 2008.

 

O Campo

Um Sol negro, de escuros

Encrespados, refletido nas águas que matiza.

Alvas pedras.

Amena e fresca brisa.

Um fino Capitel transfigurado.

 

Pardos Montes, no Chão encastoados.

A Fonte. A crespa Relva na divisa.

Colunas do frontal que o Musgo frisa.

O Vale que se dfende, aveludado.

 

E o Pomar: seu odor, sua aspereza.

Essa Romã, fendida e sumarenta, com o Topázio castanho, mal-exposto.

 

Os frutos adorantes

E a Beleza, - esta Onça amarela que apascenta a maciez da Morte e de seu gosto.

 

Ariano Suassuna

publicado por joanabosak às 19:47
sinto-me: de férias
música: pás de ventilador
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12
Dez 08

Meu reino por esse apôdo!

Lembro-me de Camille Paglia, no Fronteiras do Pensamento, falando a respeito de Madame du Pompadour: she was the first brainy'n'stylish of the history.

Neca de Maria Antonieta. Pompadour é que era a cara.

Georgiana Spencer era a tal na Inglaterra dos XVIII.

Amante do futuro Primeiro Ministro, Charles Grey, casada com o Duque de Devonshire - o homem mais poderoso da Inglaterra no período. Amada por todos: pelo povo, pela aristocracia, menos pelo seu marido. Barulho de vinil riscando. Já lemos - ouvimos - esta história antes. Georgiana o quê mesmo? SPENCER. O nome dela era esse. Ascendente de D. Ela era G. Nas telas é vivida por Keira Kneightley, nossa duquesa, rainha, pirata, enfim: a encarnação inglesa entre Jane Austen, Era Vitoriana e algo mais.

A Duquesa mostra como a vida das nobres não era brioche: pencas de filhas que deveriam ser sempre filhOs; impossibilidade total de liberdade, felicidade etc. É, o XVIII não foi assim tão melhor que o XIX para nós, mulheres.

Apesar de tudo, ela parecia ser linda, charmosa, divertida e... inteligente - ao contrário da descendência, que só precisou ser stylish.

O filme é bom, conseguiu deixar Ralph Fiennes quase péssimo como o Duque, que no caso dele, não precisa ser nem dolce de tão bom que ele é. E com uma mãe como Charlotte Rampling não precisamos de mais nada, nem de Jean-Michel Jarre... Dominic Cooper combina mais com Mamma Mia, mas não cai mal como Grey. Viva o chá!

Uma paella me espera: vou lá ver...

publicado por joanabosak às 22:08
sinto-me: melhor
música: de crianças
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10
Dez 08

O título do novo filme dos irmãos Coen já remete de cara à Kafka. Se Maks Brodt não atendeu ao amigo, publicando por sua conta e risco livros como O Processo - na ordem que melhor lhe parecia - os cineastas também não queimaram. Perguntaram-se à la Bataille: é preciso queimar?

Mexeram nos mesmos temas: incomunicabilidade, paranóia, neurose.

Frances McDormand soberba, como sempre. John Malkovich sendo John Malkovich, as usual; perverso, mesmo que vítima, de alguma maneira. George Clooney muito convincente como marido que trai, trai, trai e finalmente cai do cavalo - aliás, a cena da "apresentação" da máquina na qual ele trabalhava é hilária. Brad Pitt em outro grande momento: bem dirigido e excelente como o boboca feliz. De chorar de rir.

Elenco afiado, argumento aparentemente non sense: voltamos aos clássicos.

Bibliotecas e livros existem para serem queimados, diria Umberto Eco. Informações também, relações idem.

Mentira. É na contra-corrente que as coisas realmente acontecem.

Ah! Já ia esquecendo: Tilda Swinton, a mulher geladeira, nunca mais deixará de ser Orlando enquanto viver: encarna o duro do masculino e aparece mais macho que qualquer um.

O problema é que não sobra ninguém: pedra sobre pedra. Todos os arquivos são queimados, os vivos e os mortos.

Mas, de toda forma, sempre leia antes.

publicado por joanabosak às 22:20
sinto-me: com rinite
música: CIA man
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09
Dez 08

Fui buscar em Derrida uma explicação para a performance que é o gênero e a possibilidade já levantada por Virginia de o gênero ser mesmo performance levada a cabo pela roupa.

Vindo ao Brasil descubro Helio Oiticica na performance crítica com sua anti-arte: o parangolé. O espectador deixa de sê-lo, deixa de assistir e passa a ser. O parangolé como emblema, estandarte, bandeira, é a possibilidade de o cidadão comum constituir uma identidade única, nova e autêntica e absolutamente impermanente. Totalmente cool, totalmente fashion, embora completamente anti-indústria.

Mas é a idéia da mensagem corporal e da performance o que está em jogo e no jogo o que vale é o parangolé, lelé.

E é por isso que eu vou começar as férias terminando Quincas Borba, Grande Sertão e estudando arte contemporânea e Oiticica.

É, o pós-moderno é um lugar bem pertinho daqui, que já existe há bastante tempo em terras brasilis.

Valeu?

publicado por joanabosak às 01:33
sinto-me: querendo saber

Não resisti ao trocadalho:

 

Vá de retrô ao ananás

Ou de metrô ao nunca mais.

 

Mais:

Nem clean, nem Klimt:

Mint.

 

É, há malas que vêm de trem...

 

 

 

 

publicado por joanabosak às 01:31
sinto-me: algo estranha, de férias
música: tv ligada

04
Dez 08

Essas miçangas me sangram

Não sei se singro ou se fico

Mas se fico, sangro

Como o barro duro que se parte

Sou como um craquelê

Porque agora escrevo

O que leio e o que nomeio

Se defino limito

E selvagemente minto

Se nomeio perco

A identidade que diz:

Fui, como quem se dessangra.

publicado por joanabosak às 02:31
sinto-me: meio a meio
música: fogos de artifício

Proponho levar a literatura ao encontro da Moda como sistema de representação cultural e examinar, principalmente, a roupa como construtora de identidades, notadamente sexuais e culturais e como condutora, também, de discursos simbólicos, tal como o livro também o é.

Gilda de Mello e Souza foi a precursora desse tipo de estudo no Brasil com sua tese defendida em 1950 e publicada apenas em 1987 com o título O espírito das roupas, a Moda do século XIX, em que desvenda justamente o papel da roupa como construtora de identidades sexuais, sociais e culturais na literatura, principalmente a partir das obras de José de Alencar, Machado e Assis e Marcel Proust. 

Execrada à época pela rigidez de uma academia em recente processo de fundação, nem a bênção de seu orientador, o francês Roger Bastide, foi suficiente para que o trabalho da professora fosse considerado como fruto de uma pesquisa inédita e de grande fôlego. Tirando a roupa do ambiente da alcova, Gilda de Mello e Souza encontrou nessa outra pele, aparentemente tão supérflua e superficial, justamente um eixo central de uma sociedade, a novecentista, amparada em uma cultura das aparências. No fim, a roupa, como empecilho ao desnudamento dos corpos revelava muito mais do que escondia a respeito da elaboração dessas sociedades sobre suas identidades e suas idéias.

Ainda poderíamos citar o caso exemplar de Oscar Wilde, que com o dandismo e sua leitura crítica da arte e da sociedade vitoriana em O Retrato de Dorian Gray, viveu no próprio século XIX e representou alguns desses parâmetros estéticos não apenas em seu texto, repleto de linguagens em cotejo – como as artes aproximadas pela literatura – mas em sua própria experiência prática como esteta.

Nos últimos anos, dentro e fora do Brasil, entretanto, a Moda deixou de ser apenas produto e passou a ser examinada também como objeto de elaboração teórica. O trabalho recente de autores do campo das ciências sociais como Michel Maffesoli e Gilles Lipovestky, por exemplo, que estudam a sociedade de consumo e das aparências têm se dedicado há já mais de uma década a esse campo de estudo de uma forma não apenas inusitada – e que confirma a importância da roupa não apenas como “cultura material” (como diriam os antropólogos), mas como conformadora de idéias e práticas sociais mesmas.

 

Livros e roupas: museus portáteis

A roupa hoje, cada vez mais, nos aparece, segundo minha leitura, como um museu portátil. Se para o escritor chileno Roberto Bolaño o livro é um museu portátil, a Moda, que para Gilda de Mello e Souza é também uma forma de arte, conta uma história, podendo inclusive ser analisada do ponto de vista semiótico; vista como um micro-universo de lembranças, percepções, sensações e memórias coletivas ou individuais. Quem não teve ou não tem uma peça de roupa que conta ou rememora – faz viver – uma história? As roupas – segunda pele - nos cobrem e assim são recheadas por nossos corpos e nossas atitudes. Virginia Woolf viu isso em Orlando e foi além: “as roupas que nos usam, e não nós que usamos as roupas: podemos fazê-las tomar o molde do braço ou do peito; elas, porém, modelam nossos corações, nosso cérebro, nossa língua, à sua vontade.”

Se o poder da roupa é tão grande, por que foi evitado por tanto tempo? Muito mais recentemente, Isabel Allende, n’A casa dos espíritos também percebeu isso. Nívea, sufragista e mãe de Clara, falava logo no início dessa história repleta de trajetórias femininas de que não bastava às mulheres chegarem à universidade e ao voto: era necessário que pudessem se desvencilhar do espartilho, das golas justas e das roupas que não lhes davam a menor possibilidade de movimento e, conseqüentemente, de liberdade.

E em Orlando, a roupa tem esse poder. Quando Lady Orlando resolve manter as centelhas de liberdade que sua vida masculina lhe proporcionava, a possibilidade de sair à noite sozinha, de que estratagema ela se utiliza? Da roupa. Travestida, Lady Orlando volta a ser homem quando quer e pode fazer uso de uma liberdade inimaginável para as mulheres do severo século XIX.  

Assim como Xima/Quima: “Xima, vestida d’home, calça curta, casaca de cuir, perruca blanca, bem peinada, a peu dret, sobre les runes enfangades del baluard de Santa Clara, veia avançar, entre la mitja llum del capvespre, els soldats del duc de Berwick.”

Vestida de homem, Quima pode ser soldado e assim defender sua nacionalidade catalã frente às ameaças estrangeiras. O que está em jogo, antes do gênero, é a identidade nacional. Para Maria Aurèlia parece que o ser catalão está à frente do ser “homem” ou “mulher” – o catalanista, o soldado, é andrógino, como o poeta de Virginia.

Virginia e Maria Aurélia: escritoras e assassinas

A escritora e ativista catalã, que chegou a ser conselheira da cidade de Barcelona e morreu em 1991, admirava Virginia acima de todas as outras pessoas no mundo e quando escreve seu prefácio a Quim/Quima não sabe bem como se dirigir à sua mãe literária:

       Aquesta carta ha estat començada moltes vegades, mai no m’he decidit. La qüestiò del tractament em cal usar per dirigirme a la persona que admiro més del món i de la qual he après tantes i tantes coses. Sé que em aquesta terra anglesa el tu no s’estila i que molt pocs tenen el dret d’usar el teu nom: Virgínia.

 

Tradutora de Virginia Woolf, Marguerite Duras, Betty Friedan e prefaciadora das obras de Simone de Beauvoir ao catalão, Maria Aurèlia queria mesmo era matar o “anjo do lar” do qual falava Virginia em Carreiras femininas. A versão de Maria Aurèlia instiga a mulher de seu tempo a continuar “assassinando” o anjo do lar, pois somente assim poderia ser sujeito social e senhora de sua própria vida:

He assassinat l’àngel de la llar. I no ha estat fàcil, creu-me; potser per això me’nsento orgullosa. En primer lloc, no és gens senzill assassinar un àngel; no s’està mai quiet, vola i es fa fonedís, i reapareix quan menys t’ho esperes, i és tot dolcesa, i et captiva amb les seves ales blanques que fan olor de naftalina

 

E vai além:

Aplica’t la història, senyora de bé, i creu-me: si vols fer alguna cosa de bo en aquest món, i no et resignes a ser un esbós de persona, assassina l’àngel de la llar; nomes així començaràs a viure

 

Ou seja, para não ser apenas um “esboço de pessoa” é necessário que se torne, antes, assassina do tal anjo, símbolo do “eterno feminino” de que já falava Simone de Beauvoir no Segundo Sexo, para que só a partir dessa morte possa haver uma outra vida para a mulher.

Na literatura essa outra vida já era possível: é no “calco” e na pista de Orlando que Maria Aurélia Capmany empreende sua busca do ser total.

De Orlando a Quim/Quima

De Londres ou Sussex a Barcelona: Orlando singra pelo Canal da Mancha, contorna a península ibérica e chega à Ciutat Comtal. A romancista, ensaísta e dramaturga catalã Maria Aurèlia Capmany, publica, segundo ela mesma, o seu “calco” de Orlando. Em carta-prefácio a Quim/Quima escreve a Virginia Woolf, em 1971, atentando contra o rigor da História, como diria a própria Maria Aurèlia em Un lloc entre els morts, e respeitando um tempo todo seu e de Virginia.

Em algum momento de sua juventude no encontro com Virginia, a musa-autora já lhe havia vaticinado que a imitasse, porque ao imitá-la tanto mais se assemelharia a si mesma, nessa busca do outro mais se faria ainda mais autêntica:

Imita, imita sense escrúpols perquè no ho aconseguiràs mai. Com més fidel siguis al model que estimes, més seràs tu mateixa. Pots repetir tranquil·la el mateix vestit, la roba dibuixarà sobre el teu cos uns plecs inimitables, i el perfum, el mateix perfum sobre la teva pell bruna farà una altra olor

 

Se o que sonhou para si mesma foi a cópia intencional de um Orlando em catalão, Maria Aurélia tornou-se genuína em sua obra-prima intertextual. Porque o que Quim/Quima faz é justamente repetir Orlando, mas a partir do ano 1000 da história da Catalunya e assim recriar ainda mais um tempo que só existe no texto e viver até as vésperas da Segunda Guerra Mundial, capítulo execrável da história espanhola, tanto mais para uma catalanista convicta.

Por outro lado, se Virginia discute o gênero e a literatura em sua obra, Maria Aurèlia busca mais a nacionalidade e a história de uma Catalunya refém da História. Duas escritoras presas em um tempo de mulheres à beira do abismo do espartilho e da crinolina – que também é armadura, posto que sirva de máscara à gravidez de uma Orlando travestida – mas livres no paraíso da literatura em que o tempo flui ou pára conforme o desejo do narrador.

Virginia vem de uma trajetória de obras em que a identidade feminina está em foco: Clarissa, a Sra. Ramsay, Lucy, Rachel existem em suas contradições. Orlando agrega uma vivência identitária e de gênero que ultrapassa suas predecessoras e suas sucessoras: ela pode experimentar os dois lados, sem nunca deixar de ser ela/ele mesma/mesmo, pois sua memória está intacta. Mesmo as pernas continuam sendo o seu grande atributo de beleza física: o que define Orlando em sua composição de macho ou fêmea é a roupa. A roupa muda, o que permanece é o texto e a busca pelo poema ideal.

Por outro lado, a personagem centenária de Maria Aurèlia – o Estado catalão? – tem a possibilidade de ir e vir em suas trocas de roupa e de gênero, acabando o livro como homem, depois de ter sido mulher. Ao final dessa narrativa, Quim pilota um jato, vê a ofensiva nacionalista espanhola sobre a Catalunya em 1938 e faz planos:

Se n’anava amunt, però no per sempre, tornaria a terra, però no sols perquè li agradava viure, sino perquè havia de resoldre moltes coses: casarse amb la Teresa, que l’estava esperant, examinarse de l’assignatura pendent, acabar la novel·la. I sobretot, endreçar l’humor dels homes, perquè la terra fos mès habitable.

 

            Além das ilhas inglesas e da costa catalã a literatura perpetuou um espaço todo nosso: esse mundo – ainda que imaginário - é um lugar mais habitável, graças às trocas de roupa, de gênero e de letras de Virginia Woolf e Maria Aurélia Capmany.

 

publicado por joanabosak às 02:14
sinto-me: Jô misma
música: ao longe

03
Dez 08

CYRO MARTINS E SEUS SUCESSORES

                                                          

                      A arte deve ser como um espelho que revela nossa própria face.”

                                                                                     Jorge Luis Borges

 

A retomada clara ao mote proposto por Borges em “Kafka e seus precursores” tem aqui uma importante razão de ser. Se Borges nos apresenta Kafka criando seus pais literários, penso em Cyro Martins como o talento individual que cria uma nova tradição . Por outro lado, o grande precursor de Cyro Martins parece ter sido Alcides Maya, que em Tapera e Ruínas Vivas já nos apresentava temas queridos e recuperados pela prosa trabalhada de Martins.

Ao trazer o tema da orfandade e da falta de rumo, Cyro Martins me evoca, necessariamente, dois talentos individuais dessa tradição: o argentino Ricardo Güiraldes, provável precursor, com seu quixote dos Pampas, Don Segundo Sombra, e Barbosa Lessa, com Os Guaxos, premiado melhor romance pela Academia Brasileira de Letras em 1961.

Entre precursores reais ou imaginários – posto que a relação é o leitor que estabelece, como no princípio intertextual: a relação é produtiva, não estática ou dada a priori – e sucessores tão visíveis como ficcionais, Cyro Martins se constitui como uma grande fronteira na literatura regional do Rio Grande do Sul e como representante dessa no espaço platino. Retoma o gaúcho em sua inteireza cotidiana, apesar de o centauro estar pela metade: o cavaleiro não mais existe e mesmo a última lembrança desse passado recente e tão distante, o arreio, é penhorada pela dureza da vida - são órfãos da própria gauchidade, ou melhor, eis que o conceito novamente se ressemantiza. O gaúcho como homem do campo real perde seu elo com a realidade, ele, que nunca foi patrão ou proprietário perde o direito de estar naquela terra que pensava sua. Perdida a terra, perdem-se, sucessivamente, o cavalo, os arreios e, por último, a esperança.

O órfão, ou melhor, o bastardo, havia sido parte da temática de Ricardo Güiraldes, aristocrata portenho que escolhe ser gaúcho na literatura e em momentos da vida. Mas o órfão de Güiraldes se converte em gaúcho e, posteriormente em proprietário e homem letrado. Embora herdeiro do dono da estância, o verdadeiro testamento de Fabio Cáceres é dado por Don Segundo, a sombra de todos os gaúchos, com a sabedoria, a calma e a paciência que o gaúcho teve de desenvolver literariamente para sobreviver no mundo dito civilizado. Depois de Martin Fierro, havia que pacificar-se. Don Segundo é isso: o gaúcho que faz as pazes com a sociedade. Mestiço, representa não a si mesmo: mas a coletividade difusa de seus paisanos e de todo um país híbrido em busca de uma identidade histórica plasmada no tempo. A herança de Don Segundo para Fabio e todos os gaúchos é a certeza de que o ser gaúcho é algo imaterial que nos acompanha já independentemente do destino social: agora até o patrão pode ser gaúcho. Ser gaúcho longe de ser um crime, é agora, algo que se carrega na alma.

Leitor da tradição nativista, Barbosa Lessa, em Os Guaxos, retoma o tema da orfandade. Para ele, a história do Rio Grande do Sul, com todas as suas batalhas, foi escrita por homens guaxos: o guaxo e o gaúcho mesclam-se, é o ser sem eira nem beira, o pária social, o criminoso, o contrabandista; que com o passar do tempo, com o cercamento dos campos, com a paz, tornam-se posteiros, peões, domadores, alambradores. O guaxo de Barbosa Lessa é o gaúcho a pé sem idealização de Martins, são os homens e mulheres do campo, em sua vidinha cotidiana, repleta de afazeres domésticos e campeiros, aqueles que ainda não foram engolidos pela cidade.

Mas se é para a cidade ou para os arrabaldes – como quer Borges – que os gaúchos se acabam indo, eis que o substrato anterior pode continuar existindo na alma, se não na lida. É nas orillas – antes Palermo, agora já bairro semi-central de Buenos Aires - das cidades que o gaúcho aparece, e aí temos a figura de um contista como Aldyr Garcia Schlee, outro fronteiriço que, dentro de seu tempo nos apresenta cenários despidos de glamour campeiro: os antigos gaúchos são, agora, os vizinhos empobrecidos, que lutam por uma galinha para a refeição do dia.

Schlee, que estuda, conhece e traduz a fronteira na fronteira, nos aproxima o gaúcho como ele se mostra nos interiores de sua nova realidade; não julga, nos dá a conhecer as pequenas misérias de seus cotidianos.

E mesmo nos lugares e situações mais imprevistas surgem sucessores de Cyro Martins: o Gaucho Insufrible, de Roberto Bolaño, é, a meu ver, uma espécie de Guedes às avessas, com seu campo estilizado, onde não há mais gado e quase cavalos, apenas coelhos, frutos de uma nova (ir)realidade. Nesse caso, o protagonista, Héctor Pereda, viúvo, pai dedicado e “advogado inatacável”, volta, já entrado em anos à sua terra de origem. Encontra seu rancho tapera e, aparentemente em delírio, só vê uns poucos coelhos à sua volta e paisanos que vão surgindo aos poucos. A realidade não existe mais, só a que a literatura e nossa memória vão criando e retro-alimentando. Não há nada além de texto e vazio.

O livro-poema Gaiteiro Velho, de Fausto Wolff, mostra, também, principalmente em Missões, esse novo gaúcho: um gaúcho, que como Orlando, é imortal e já tem idade para conhecer o outro lado: quando fez 203 anos, achou que já era a hora de pendurar as esporas e depois de ter corrido o mundo, conhecido venturas e desventuras humanas, volta para sua terra, rememora seus feitos de homem do mundo – é um gaúcho cosmopolita, como o posterior de Güiraldes e o próprio Güiraldes – e na sua rememoração reencontra-se consigo mesmo e novamente se vê piá, última lembrança.

Mas ataquemos por outra frente: em Ramilonga, de 1997, Vitor Ramil retoma sua Estética do Frio através dos poemas musicados de João da Cunha Vargas, além de composições próprias. Ramilonga é sua própria milonga, uma milonga que transcende o milênio. Indo ao Pampa é a volta a essa paisagem, pensando no ano 2000. Deixando o pago nos mostra também a rememoração.

Como pensa Ruben Oliven parte – gaúchos, campos, cavalos - e todo – paisagem, Prata, Brasil - são, fundamentalmente, cernes na construção de nossa identidade gaucha e andarenga. Hoje, nada mais cosmopolita do que gaúchos desfilando em passarelas européias e o tango eletrônico encontrando-se com a milonga em Vuelvo al Sur de Gotan Project.

Tudo é possível para o gaúcho depois de Cyro Martins e seus sucessores, até a sua sobrevivência.

 

 

 

publicado por joanabosak às 10:46
sinto-me: gaucha

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