Blog que queria ser outra coisa, mas que se contenta em deixar trans-pirar a sua dona... Moda, literatura, cinema e efêmeras frivolidades em geral.

22
Abr 09

Eu ia de Mulheres públicas, a retomar um tema caro; mulheres leitoras que escrevem e se escrevem ao longo da Hitória, tipo Musa madonna, mas Chico Marshall pede Moda e vou de Moda.

O tema é Audrey Hepburn e agora inicio uma pesquisa mais ou menos ampla sobre as relações dessa, que foi considerada, no ano passado, a mais bela do cinema de todos os tempos - com Jolie em um honroso segundo lugar e Grace Kelly em terceiro!

O que busco: Audrey e Givenchy, Edith Head, suas bolsas, luvas, chapéus, sapatilhas, sapatos com fivelas, bijuterias, piteiras, um estilo muito chaneliano: vestido preto, pérolas, simplicidade e elegância nas formas e na postura.

Sim, Audrey era o melhor modelo dela mesma, como Mlle. Chanel, com a vantagem de ter sido efetivamente bela e aparentamente mais bem humorada. Além disso, essa musa pôde casar-se e ter filhos. Rebeldia total: foi linda, inteligente, talentosa e ainda incorreu no crime: casou-se em plenos 60's e teve dois filhos!!!!

Isso não é o Segundo Sexo,  Mlle. de Beauvoir, isso é O Sexo, ainda que sem a exacerbação do caráter sexual.

Oh, sim, Audrey conseguiu essa proeza inimaginável hoje: conseguiu ser sexy sem ser burra, ou seja: matava no quesito elegância e nunca precisou mostrar um belo para de nadas, ainda que sua Holly Golightly fosse uma boa bisca. Mas é uma bisca que usa Tiffany's, ok? E isso, definitivamente, não é pra qualquer uma.

Depois de tudo ainda foi ser filantropa de verdade. Não adotou ninguém de nenhuma etnia ou país distante, mas foi uma embaixadora atuante da Unesco.

Hoje a Audrey Hepburn bag é vendida em um site que tem os fundos revertidos às causas humanitérias às quais ela se dedicou.

Ok, voltei. Ainda estou fabricando o ninho, mas acho que a fase casulo passou.

publicado por joanabosak às 12:17
sinto-me: começando o dia
música: Madeleine Peyroux

05
Abr 09

Não que a vida tenha parado: ao contrário, aulas e mais aulas, novos alunos, turmas gigantes.

Boas novas com tudo isso junto: uma segunda semente que germina e cresce, habita em mim.

Pausa para quase tudo neste primeiro trimestre; muito sono, algum mal-estar, apostas no futuro, sempre.

As idéias continuam em ação e as gestações também.

É hora de ficar em casa, dormir sempre que possível - o que não é sempre.

Cuidar da cuña interna que carrego, independentemente do que ela guarda e do que me aguarda.

Estou aqui: repleta, recheada de sonhos, cores e novas esperanças ressemantizadas - melhor seria, ressementizadas.

A vida é sempre um novo começo.

Pronto: voltei a ser madonna.

Espero continuar musa.

 

 

publicado por joanabosak às 20:11
sinto-me: casulo
música: de ninar
tags:

02
Mar 09

"Canta, ó musa...". Assim começam a Ilíada e a Odisséia, os clássicos da tradição oral grega fixados por Homero, citado por Machado de Assis em Esaú e Jacó - exatamente nesta passagem - e também ad infinitum nas mais diversas traduções artísticas, fiéis ou infiéis. A exortação à Musa pode ser vistá lá, n'O Leitor, de Stephen Daldry, esse já uma releitura - mas isso é para um outro post.

A Musa como inspiração a uma ação épica faz parte de um imaginário ocidental antigo que se perpetuou até bem próximo de nós.

Que é Helô Pinheiro, nos bons tempos? A musa inspiradora de Tom e Vinicius para outro clássico - esse, da música popular brasileira.

Mas indo além, a dona da voz de parte das mulheres que não tiveram voz, Michelle Perrot, a grande historiadora francesa, de História das Mulheres e Mulheres públicas - este que eu leio e me lastima não ter lido antes, porque eu já tinha, de alguma forma, o livro há bem uns douze anos... - fala de um ideal ocidental masculino que é o da musa-madona.

E o que vem a ser isso?

A forma acabada de uma fêmea, que só não é angelical porque tem sexo, mas não por isso menos divina.

Que é a musa?

É a que inspira, a que exorta, do alto do Olimpo: ela assume, na Odisséia, um nome, o nome da deusa da guerra e da sabedoria: Atena, embora as musas, na verdade, fossem nove, uma pra cada arte.

E o que é a madona - com minúsculas, por favor, e um N só! -?

É a figura virginal da uma mãe renascentista que encarna a mãe do Deus cristão.

Ambas intocáveis. Ambas perfeitas, limpas, caridosas, estáticas e extáticas.

Nada de mulher real, à beira de um ataque de nervos cotidiano, às voltas com dietas e cremes e roupas e sapatos e chiliques mis!

A musa-madona ainda é a mulher ideal. Amélia que me perdoe, mas esse nome não me remete a nada do Belo intangível que as musas-madonas devem ser.

Mas Perrot quer mesmo é falar daquelas mulheres que ousaram ousar em séculos anteriores e que tornaram possível ser mulher hoje.

Mulheres íntimas que se tornaram públicas: resolveram escrever, trabalhar, sair da sombra de seus homens.

E aí temos uma Isabelle Eberhardt, francesa aventureira, disfarçada de Tuareg, no norte da África - essa eu já conhecia, graças às Histórias de Mulheres da ótima Rosa Montero.

Temos uma George Sand, escritora francesa, ativista pollítica quando das revoluções liberais, que se vestia como homem, embora, obviamente, isso não apenas não fosse tolerado, mas PROIBIDO.

Temos uma Mary Wollstonecraft, nascida em 1759, filha de um fabricante de lenços, que com 19 aninhos sai de casa numa Inglaterra ainda não vitoriana e que lança mais tarde, A Reivindicação dos Direitos da Mulher, um documento fundamental para a nossa existência. Mary escreveu muitas outras coisas, inclusive uma defesa dos direitos do homem, onde detona a indústria escravocrata que enriquecia seu país natal e foi lida por vários dos iluministas. Além disso, ela viveu e teve duas filhas com homens diferentes - que escândalo - defendendo que o casamento é uma espécie de prostituição legal, o que causou celeuma na época.

Ou seja, no século XVIII, enquanto se fazia, na França, uma revolução masculina e burguesa, Mary vivia a vida de uma mulher que existia como cidadã. Além disso, nos deixou outro grande legado: sua filha, Mary Wollenstocraft Shelley, a autora do Prometeu moderno, Frankenstein. O que Perrot não sabe é que Mary foi traduzida no Brasil por Nisia Floresta, ainda no século XIX!

Michelle Perrot enumera muitas mais. Entre elas, Sevèrine, a primeira jornalista francesa, que abriu espaço pra toda uma imprensa feminina com profissionais mulheres.

E esse é um espaço fundamental de existência delas: a imprensa, principal e inicialmente de moda.

É na imprensa de moda justamente que encontraremos algumas das primeiras profissões femininas além da ocupação doméstica e de algumas pioneiras operárias.

Mas é importante que se diga que a imprensa era o lugar da opinião e esse era um lugar eminentemente masculino.

Pensa bem: na França a mulher só teve o direito ao voto depois do Brasil, após o fim da II Guerra. Então, imaginemos não ter direito civil até lá?

Opinião, então, nem pensar. Nem calças compridas se podia usar em "passeios públicos".

Dessa forma, as roupas e todo o seu conteúdo - já que Virginia já dizia que são elas que nos usam e não nós que as usamos - passando pelo costume de uma época, comportamentos, códigos de conduta, maneiras de ser e estar no mundo; estão, uma vez mais na origem da mulher - e por decorrência, do homem - moderna, já que existir na era pós Musa-madona dependeu em grande parte da existência das roupas e de toda a sua indústria.

Cabe decidir, hoje, qual é o lugar que queremos: ser estátua ou escultura ou ser a transcendência dessa cultura. Matemos o nosso anjo do lar, como querem Virginia e Maria Aurèlia.

Eu ainda acredito poder ser musa-madona-muderna com idéias.

Por enquanto, me contento em ser apenas uma pequena musa paradisiaca.

 

 

publicado por joanabosak às 18:33

20
Fev 09

Quem tratou Penélope melhor?

Definitivamente, 2008 foi um baita ano pra madrileña, que, graças a Deus, não se tornou Cruise credo! e foi cair nos braços latinos do TUDO Javier.

Voltando à questão: Woody ou Isabel?

María Elena é as tripas e o coração do filme de Woddy Allen, embora, vá lá papá, sobre alguma cosita pra Rebecca Hall e pra Scarlett Johansonn...

Mas ver Consuela, depois de M. Elena, nessa película de Isabel Coixet, é Fatal...

Sabe por quê?

Porque me faz dar uma volta no parafuso em direção a quê?, 1993, 94, Jamón Jamón (agora eu sei que gosto isso tem!), do catalão Bigas Luna, estréia de Penélope, com o já mucho besame macho Javier Bardem de toureiro taradão.

E vejo como a chica cresceu.

Está mais linda que nunca e seu beicinho serve pra muitas cositas más.

Beijar Sir Ben Kingsley - em ótima forma, diga-se de passagem - é só mais um detalhe.

E como se não bastassem todos os filmes de La Coixet serem uma jornada da alma essa jornada é sempre feita com uma sensibilidade que - desculpem-me os convictos - só uma alma feminina é capaz.

E a tecelã  Penélope/Consuela consegue se safar bem e deixar a gente apatetado, apalermado, extasiado e completamente esborrachado no chão com as revelações que faz a um David Keppesh que tem seu mundo revirado do avesso e que passa, ele sim, a dar voltas e mais voltas em mil parafusos nas pequenas verdades e idiotissincrasias que bolou pra não se apaixonar.

E no meio de tudo isso o que o Velho percebe?

Que as pessoas não são descartáveis, meu senhor, e que elas grudam na gente, com suas partes boas e ruins igualmente e isso é uma (minha) verdade absurda.

E aí meu velho e bom Bê me diz do alto da sua filosofia da vida cotidiana: todas as mulheres são loucas e todos os homens são bobos e María Elena torna isso concreto e David Keppesh resplandesce de bobeira - que, na verdade, é medo.

E tudo isso era só pra dizer que eu virei fã da Penélope nos últimos meses, mas sem querer me desviei e fui refletir, porque afinal, é pra isso que servem os filmes e a vida.

E tudo isso só me faz amar mais as pessoas que eu já tenho.

publicado por joanabosak às 20:45
sinto-me: proud to be happy
música: ainda nosso Bas-fond
tags:

Como diriam as fashionistas de plantão, há um perfume gaucho que continua no ar...

Desde Roberto Cavalli, na coleção outono/inverno 2007/2008, com seus ponchos, chapéus, botas, bombachas meio jadhpour, muito luxo do gaúcho; já havia uma utilização glamourosa dessa indumentária hoje tão ligada, no Rio Grande do Sul, a algo que não é, de maneira alguma, ser gaúcho: o Movimento Tradicionalista.

A Maison Dior, ainda am 2007, também lançou uma linha de marroquinerie  com o label Gaucho (algo que os franceses deviam pronunciar goochô), com bolsas em forma de sela, estribos como fivelas, botas, enfim, toda uma sorte de elementos bem emblemáticos.

E se a revista Vogue - edição brasileira - de janeiro de 2008 só conseguiu ver nas franjas o estilo cowboy americano, problema deles, que estão precisando conhecer uma cultura bem mais próxima mas muito mais distante do mundinho fashion.

Na seqüência, SPFW inverno 2009, com Tufi Duek, que eu já havia mencionado. Patti Smith de trilha, Horses e mais horses, noites brilhantes do sul: uma plêiade de estrelas nas passarelas, ostentando ombros só em ponchos ressemantizados. Bombachas da luxo com paetês negros e cintos novamente lembrando as velhas guaiacas platinas. Tudo com muita elegância, nada a dever a uma suposta guasquidão a que o gaúcho do RS remete. É gaúcho bem comercial lido pela lente paulista, mas isso não é pra ser crítica - a coleção é linda e coleção é sempre leitura e releitura de alguma coisa - nem que seja a tradução do próprio estilista a algo que ele idea-lizou.

Quando tudo parecia já adormecido e eu já havia montado o programa de um curso sobre moda com o tal perfume - O pampa na passarela - eis que a antenadíssima Ana Carolina Acom, corpomenteespírito do modamanifesto.com me vem com imagens recém saídas do forno da semana de NY, com a coleção de Tommy Hilfiger: botas, chapéus, semi-ponchos, cintos com os tais estribos...

Lá vem o gaúcho de novo, com tudo.

Além de Borges com seus orilleros, de Güiraldes com suas sombras, de Barbosa Lessa com seus guaxos, de Cyro Martins com seus peatones, de Aldyr Schlee com um sul que ainda existe dentro de nós e na sua escrita perfeita - aí chega toda essa parafernália em torno de um conceito. E o que temos agora, já que Caringi, Jungbluth, Blanes, Vasco Prado, Xico Stockinger e outros nossos já nos retrataram de todas as maneiras mais ou menos lidas e relidas?

O que nos toca? Onde chegamos? Qual o horizonte sem fim das planícies sureñas?

Para onde foi o nosso andarilho?

Cetegistas que não me leiam, mas fomos parar na passarela e na mente de almas que compõem com pedaços de tecidos histórias que nos contam as roupas.

E hoje a história que me contaram me trouxe de volta prum mundo telúrico com cheiro de terra e gosto de mate, ainda que eu tenha de tomá-lo cavalgando no Central Park para depois apear e tomar um café no Starbucks e à noite assistir a mim mesma numa passarela mundialmente televisionada no umbigo do mundo.

Fundamentalismos - que nada - à parte, hoje, uma vez mais, vuelvo al sur, como se vuelve siempre al amor, porque, como diria Don Segundo, iremos com nossa alma por delante, como madriña de tropilla.

.

publicado por joanabosak às 17:47
sinto-me: gaucha
música: Bajofondo
tags:

19
Fev 09

Não resisti ao último post de minha amiga ReFratton em seu blog, sobre Carla Bruni.

Como eu estudei recentemente a vida de duas princesas para conferências no StudioClio e um curso de extensão no UniRitter, não houve como não me reportar a elas depois de ler o post da Renata.

É, a vida de princesa mudou.

Fico muito fula quando leio histórias de princesas pra minha pequena, pois elas são sempre adormecidas, esquecidas, esperam, são beijadas... Enfim, nada melhor do que a paródia que aparece em Shrek Terceiro pra mostrar como as princesas, em geral, são umas abobadas.

Críticas à parte, dei-me conta mesmo - com a ajudinha da Rê - de como as princesas mudernas podem ser um pouco mais independentes e donas dos seus lindos narizes invariavelmente arrebitados.

Por exemplo: de Grace a Carla.

Pobre da Grace, ela era uma graça, mais, ela era linda. Mas deu o azar de ser filha do Jack, um cara durão, que mantinha até a geladeira cadeada. A mãe preferiu vender detalhes do noivado com Rainier a uma Caras da vida a dar colo pruma filha que precisava dele - e muito.

Depois de brigar com toda a família para ser atriz e modelo e poder pagar suas próprias contas em NY, essa filha dourada de uma Philadelphia - adoro a grafia arcaica, lembra-me minha bisa, que adorava soletrar seu nome - aristocrática enriqueceu, ganhou o Oscar de melhor atriz em anos de Audrey Hepburn e fubangueou com William Holden, Clark Gable, Frank Sinatra, Oleg Cassini, entre MUITOS outros de que eu não ouso lembrar. Entre os pretendentes, casados, divorciados, bebuns, judeus (oh!) e até o velho Hitch, que a idolatrava mas parece que nunca levou . Até onde eu sei, Grace só não namorou afro-descendentes - ai!

Pra loucura de papai Kelly, o típico self made man americano, filho de irlandês duro que enriqueceu por conta própria, que de trabalhador da indústria têxtil chegou a campeão olímpico de remo e candidato a prefeito. Quando Grace nasceu o cara já havia construído uma "casa" de 17 quartos no subúrbio da cidade.

Mesmo com uma trajetória aparentemente dourada, a vida da princesa não foi nenhum conto de fadas.

Ser Princesa de Mônaco exigiu comer muito brioche azedo. Rainier não era flor e precisava mesmo era de um útero - Grace foi revirada do avesso antes do casamento para se ter certeza de que era fértil - para não perder o Principado para a França.

Daí em diante, foi ladeira abaixo - ainda que com uma vista linda, da Côte d'azur...

Grace morreu ainda jovem, em um acidente de carro.

Seu legado é uma obra humanitária razoável, o primeiro casamento televisionado da história - ela pagou a multa com seu estúdio trocando os direitos de filmagens pelos anos que ainda faltavam de contrato - e uma aura de deusa do cinema.

A exposição que foi feita no ano passado em Mônaco e que migrou para Paris - Les Anées Grace Kelly - resultam num livro lindo, maravilhoso, que eu tive a sorte de ganhar do papai.

 

Já Carla Bruni, nossa princesa muderna, é outra história.

De cor de rosa, só o tailleur Chanel que ela usava acompanhando Sarko.

Carla faz o que quer e não parece estar muito aí para o politicamente correto.

Ao contrário de Grace, não precisou de um pai pra provar alguma coisa - descobriu que tinha dois...

E foi ser modelo e cantar na língua que melhor lhe aprouvesse.

E o melhor de tudo: assume seu lado "devoradora de homens", coisa que Grace sempre teve de ocultar, pois esta princesa virou ícone de elegância gelada numa época ainda muito puritana.

A grande diferença entre elas, além de algumas décadas?

O pequeno detalhe de Carla ser EUROPÉIA e provavelmente ter tido uma família menos rígida, com direito a alçar todos os vôos que uma herdeira aristocrática tem direito a.

Entre Mônaco e Paris ainda sou iluminista.

Vive la différance! Vive la France!

 

 

publicado por joanabosak às 14:25
sinto-me: rainha!
música: caminhão de bombeiro

17
Fev 09

Há tempos eu conhecia o livro de Mercé Rodoreda.

Há tempos também eu sabia o que disse García Márquez - morador ilustre de uma Barcelona franquista, ver Seis Contos Peregrinos -  sobre Mercé Rodoreda e a respeito desse livro filho do exílio, publicado em 1962.

E quando vemos a fotinho na orelha do livro, de uma Mercé velhinha, com um sorriso que extravasa a folha jamais poderíamos imaginar a força narrativa de que ela foi capaz de criar e tirar de dentro de si.

Ainda mais ela, que poderia ter sido Colometa, a Natália de Gràcia, que conhece Quimet na Plaça del Diamant, abandona Pere para casar-se com ele, tem seus filhinhos e os pombos que lhe devoram a vida ao mesmo tempo que a Guerra sangra uma Espanha dividida desde sempre.

Pra quem já estudou a Guerra Civil fica fácil contextualizar, pra quem nunca ouviu falar, vale a pena ir mais a fundo. Meu mestre Enrique Serra Padrós, filho de catalão republicano emigrado ao Uruguai, iniciou-me nesse mundo nefasto e apaixonante chamado Guerra Civil Espanhola, ou o Grande Ensaio Geral, se preferirem, para a II Guerra.

Dessa guerra sangrenta e terrível, descrita por Andre Malraux em A Esperança - para alguma coisa as desditas servem nesta vida -  talvez nos reste a melhor imagem que ela produziu: Guernica, o quadro gigante e gigantesco de Picasso - lembro da gravura em metal que havia na casa de meus pais, em dimensões menores mas igualmente marcante.

Picasso, que na exposição universal de 1938, em Paris, onde já vivia há quase trinta anos, responde ao mandatário alemão se era o autor da obra:

- Não fui eu que fiz. Foram vocês.

Pausa para refletir.

Quem lê A Praça do Diamante se assombra com a poética e com o fluxo de idéias, de consciências de Colometa, tida por ingênua, mas na verdade uma moça pega de surpresa, em meio ao turbilhão insano e desesperador da guerra.

Apesar de tudo, a vida continua sempre e Colometa segue na sua busca intermitente por uma vida melhor para si e seus filhos e é no momento de maior desespero - a cena da garrafa deixada no balcão após a catarse é um soco no estômago, uma facada no fígado - que a esperança ressurge.

Colometa volta a ser Natália e Gràcia volta a ter graça.

Não há mal que sempre dure.

Valeu a pena virar a noite em busca de uma estória que é, também, história.

 

publicado por joanabosak às 14:27
sinto-me: viva
música: Cucuru Paloma
tags:

Nem deu pra acabar bem o post Coraline e já fui assistir ao filme de novo.

Mas esse post já passou e fiquei devendo Tango, outro do mestre Saura, que ele esteja no meio de muita dança, onde estiver.

Começa detonando: uma panorâmica da Capital Federal: esse pedaço de Europa latino-americana que é Buenos Aires. Cidade que eu amo e quero voltar sempre que puder.

O filme - menos documentário e mais filme que Ibéria, assunto anterior deste blog - mescla tango, claro, à reflexão sobre a política e a história recente argentinas.

Os bailes são lindos, alguma música ao vivo e bailarinos incríveis. Até un tío que é possível assistir na Esquina Carlos Gardel, Julio Bocca.

No meio disso tudo, como não poderia deixar de ser, um - ou até mais - triângulo(s) amoroso(s).

Na contracorrente, Mario - Miguel Angel Sola, de Sur - é o artista-diretor do espetáculo, recém acidentado, manco, rejeitado pela mulher, que se divide entre a direção do espetáculo e seus delírios de amor e dor de cotovelo. Para varrer Laura da memória, Mario descobre Elena, amante de um dos capos da cidade e patrocinador do show.

Contra todas as possibilidades de sucesso, Mario monta um espetáculo pouco palatável para muitos e vive o amor com una chica de 23.

Tango é puro amor em vermelho. Disputa, sensualidade, com direito às adagas das brigas de pulperias tão platinas. É o Mar Dulce menos dulce e mais traiçoeiro. É o recomeço de todos os dias, com as fraturas internas e externas de cada um.

Em tempos de reinvenção do tango vale a pena rever Saura.

publicado por joanabosak às 01:04
sinto-me: cansada
música: tv ligada

14
Fev 09

, A praça do Diamante e Tango.

O que esses três títulos têm em comum?

Quase nada. Só o(l)fato de que foram minhas companhias literárias dos últimos dias.

E aí tu me perguntas: literárias?

E eu respondo: sim!

Coraline é o último mergulho que dei em filmes supostamente infanto-junvenis. Não foi surpresa: eu já sabia que seria ótimo. Uma sensação de estar enganando alguém: o filme não era feito pra criança, era feito pra mim. Até os cabelos chanel e o figurino - maravilhoso!!!!! - da Outra Mãe: bem Almodóvar, preto e vermelho como Jô amo. Até o sapato era vermelho. Meu reino pelo figurino da Outra Mãe.

Uma visão da infância sem moralzinha de cueca, personagens cruéis e verdadeiros: loucura e dolceza nos seres mais inusitados. Os vizinhos loucos - todos artistas, tirando Walby - todos maravilhosos na sua falta de lucidez aparente. Um pouco de Lewis Carroll mais sombrio, com direito a gato falante e tudo.

Era muita coisa prum post só.

Já volto pra falar mais.

publicado por joanabosak às 08:19
sinto-me: acordada
música: poucos carros na rua
tags:

07
Fev 09

Assim é fácil ser girl: tô com O Segundo sexo do meu lado, ouvindo Madonna. Lips as sweet as candy. Um pouco de espumante da serra gaúcha ajuda.

Ter genitores como os meus também.

E projetos que te exigem ficar com a cabeça spinning também.

Mas se a gente tem uma mãe top de linha que te dá um Francesca Giobbi, ainda que um número menor, fica-se uma girl beem feliz.

Momento sex and the xity. Relax.

Waiting for my eternal sunshine. Meu eterno retorno tem nome e é, absolutely, a girl. Esse nome vem de Tróia e ela é a mulher mais linda do mundo.

E o único substitute for love que existe é o trabalho estimulante + champagne -  agora me nego a seguir a DOC e digo champagne mesmo.

Should I wait for you?

Vamos sempre esperando. E assim vivendo: o próximo semestre, a próxima aula, a próxima taça, o próximo sapato apertado. A próxima proposta indecente.

A vida é uma proposta indecente.

Já tive meus tempos de Demi Moore. E agora tenho de Luciana Avelino da Silva, if you know what I mint.

publicado por joanabosak às 00:03
sinto-me: bem
música: Music

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